Baile Brasileiro 2 coroa pesquisa histórica com músicas autorais e clássicas filtradas pelas vivências do artista para realçar o aspecto atemporal e dançante do gênero
A incursão fonográfica pelo forró nas produções atuais tem habitualmente trilhado dois caminhos opostos e, não raro, antagônicos: o culto à tradição como formato incontornável para definir o gênero musical ou a aventura disruptiva movida pela sempre cobrada intenção de “renovar” o segmento. O cantor e compositor pernambucano Carlos Filhos foge à armadilha da rivalidade com um álbum ancorado em vasta pesquisa histórica e embalado, sobretudo, pela cadência da conciliação. Baile Brasileiro 2 exalta o valor da sonoridade clássica sem desmerecer as transformações comuns a manifestações culturais temperadas com as vivências contemporâneas e, sob recorte autoral, realça um aspecto acima de arranjos e convenções, seja ontem ou hoje: o balanço indissociável dos forrós. O álbum será lançado no dia 28 de maio nas plataformas digitais.
“A intenção não é ser inovador, disruptivo e, sim, honesto, sincero em colocar o nosso ponto de vista nessa vivência com o forró, com essa tradição da música, como é feita. Outro ponto foi focar no balanço (groove), ao invés da forma, do arranjo, das convenções. Esse álbum está situado no atual momento da minha carreira e está cumprindo essa função de fortalecer meu posicionamento dentro do forró, mas apontando para caminhos sonoros a partir dessa minha vivência com forró, minha escrita como compositor, meu lugar de cantor enquanto artista da voz, intérprete, meu contato e produção com o eletrônico no fazer musical do meu tempo, de como a música é feita hoje”, explica Carlos, apresentador há três anos do Festival Nacional de Forró de Itaúnas (Fenfit), realizado no Espírito Santo e considerado o maior do mundo.
Baile Brasileiro 2 estende a pesquisa de mais de sete anos do artista sobre o forró e dá novas colorações ao conjunto de composições reunidas na edição de número 1, lançada em 2024. O cantor manteve o nome para realçar a unidade conceitual do projeto, favorecer o reconhecimento do posicionamento em relação ao forró e, assim, facilitar a identificação pelo público. “Eu sinto que o Baile 2 evolui, caminha pra um lugar onde esse diálogo do orgânico e do eletrônico está mais maduro, mais desenvolvido. Teve mais horas de contato entre os músicos, foi um álbum gravado 100% ao vivo”, ele observa.
O álbum tem nove faixas e percorre várias ramificações da matriz musical popularmente conhecida pela alcunha de “forró”. Contempla baião, xaxado, xote, toada, aboio, marchinha (arrasta-pé), côco do norte e forró em meio a músicas autorais e releituras de canções pinçadas do manancial forrozeiro brasileiro - o recorte se baseou na subjetividade do cantor formada pela junção de realidades artísticas, culturais, sociais e até amorosas. “Um circuito de afetos”, ele sintetiza o trabalho sob produção executiva da TBC Produções e gravação no estúdio Carranca.
Três singles já foram lançados antes de o álbum ser disponibilizado nas plataformas digitais. Pau nas Coisas, forró conhecido na voz de Assisão, ícone do gênero no Nordeste, se tornou pública em 2025. O segundo saiu em abril de 2026, Tempo Mãe. O terceiro é de maio - Mesa Posta, moldado como um samba de latada, é parceria com Rafael Marques, arranjador e diretor musical de Baile Brasileiro 2. A gravação contou com a participação, nos vocais, do cearense Santanna, O Cantador, um dos mais renomados poetas do cancioneiro popular da região.
A abertura do álbum fica a cargo de um toada extraída da faixa de encerramento, Canaã, assinada pelo compositor cearense Humberto Teixeira. Carlos divide a autoria com Luiz Diniz no xote Tempo Mãe, com o sanfoneiro Felipe Costta no baião Fúria das Dunas e inclui no repertório a composição de Juliano Holanda chamada Partilha - única relacionada a uma experiência estritamente afetiva. Complementam a obra a parceria de Anastácia com Dominguinhos em Alegria Pé de Serra e a música Sou Mais Forró, do paraibano Pinto do Acordeon.
A vivacidade sonora é assegurada pela combinação exitosa de músicos expressivos da atual cena artística pernambucana selecionados por Carlos. O comando da zabumba, do pandeiro e do ganzá conta com Júnior Teles, da sanfona fica com Felipe Costta, do triângulo e do ganzá com Joana Xeba, do synth bass com Lucas Dan. As cantoras Isadora Melo e Sônia Cristina compõem o coro de vozes com parte dos instrumentistas. A produção artística é dividida entre Carlos e, a convite do cantor, TomBC, parceiro antigo e nome reconhecido na cena musical pernambucana.
A seleção musical com letras afiadas somada à participação de artistas habituais nos espaços contemporâneos de vivência do forró encorpa a proposta documental e reflexiva esboçada por Carlos no álbum de perceber o gênero musical enquanto fluxo contínuo, sem nostalgia, despido de embates temporais e, sobretudo, como sinônimo de dança. “Tem coisas numa experiência de dançar um forró, de um baile de forró, que o corpo entende antes da razão. Os afetos são ativados muito antes da razão e isso é mediado pelo balanço. Eu quero com esse álbum é que as pessoas dancem”, ele diz. Que comece o Baile.
QUEM É
Cantor e compositor pernambucano de Serra Talhada, no Sertão, Carlos Filho é um músico cujo exercício artístico reflete uma intensa introspecção nas raízes da música a partir do apuro poético, da sensibilidade e da delicadeza vocal. Ganhou projeção nacional com a participação encantadora no The Voice Brasil (Globo) e transita com versatilidade por diversos gêneros da sonoridade e dramaturgia brasileiras, seja em trabalhos solos ou em parceria com ícones da cena. Integrou a Bandavoou, o grupo Estesia, lançou o Baile Brasileiro (em 2025) e, agora, apresenta o volume 2 com aprofundamento da imersão na alma do país.
FAIXA A FAIXA COM O CANTOR
Intro | Baile Brasileiro 2 - Quis começar esse álbum como quem pede licença. Isso vem muito de uma tradição da cultura popular nordestina, daquilo que a gente chama de ‘loa de chegança’. A toada que anuncia quem está chegando, o que veio cantar e o que veio dizer. No Baile 1, abri o disco com aboio. Nesse, quis fazer diferente: criar uma costura entre o começo e o fim do álbum e peguei a primeira estrofe de Canaã, a última faixa do disco. Gosto da ideia de álbum começar e terminar se abraçando. A abertura apresenta tomada de posição importante pra mim: não queria falar do nosso lugar, da nossa gente e da nossa música de forma caricaturada, folclorizada ou encaixotada. Quando canto “Por que cantar tanta tristeza?”, já existe um posicionamento.
Tempo mãe - Compus há mais de 15 anos, no banheiro da casa onde nasci e cresci, em Serra Talhada. Morava no Recife e voltava pro Sertão nas férias. Era um período sensível da juventude. Pensava sobre tempo, ausência, a relação das pessoas. E isso se consolidou numa sensação que tinha com minha mãe. Passava um mês em Serra, mas, perto de voltar, parecia que algo mudava nela. Ficava mais próxima, afetiva, dizia: “Você passou o mês aqui e não consegui lhe aproveitar como queria”. Aquilo mexia. Voltava pro Recife cheio de saudade. Tempo Mãe nasceu desse entendimento de que às vezes a gente só percebe o valor da presença quando ela está acabando. Organizou muitas coisas dentro de mim. Gravei com a bandavoou num formato reggae, dub. Sempre ouvi internamente como xote. Gravar assim foi também uma forma de reencontro comigo mesmo.
Fúria das Dunas - Nasceu da escuta. Estava em Itaúnas (ES), trabalhando num festival de forró com Felipe Costta. As pousadas estavam tão lotadas, tivemos que dividir um quarto com uma única cama. Felipe é tímido, discreto. Ele viveu uma paixão intensa, breve, dessas que parecem nascer já sabendo que vão acabar. E me contou tudo. Fiquei muito encantado pela forma como ele narrava. Às vezes a gente escreve sobre algo que não viveu diretamente, mas que ouviu e aquilo atravessou a gente. Fúria das Dunas é isso. Nasce também da atmosfera de Itaúnas. A vila parece encantada. Tem o rio, o mar, as dunas, o vento… e parece que o desejo das pessoas se mistura com a geografia. Quando voltei ao quarto, Felipe ainda estava com a mulher. Esperei do lado de fora numa rede. Depois, ela saiu e entrei exausto. Só que o travesseiro tinha o cheiro dela - cítrico, doce, meio alecrim. Dormi com aquele cheiro. Daí nasceu: “Teu abraço que deixou cicatriz / deixou marcas de amor no lençol.”
Mesa Posta - Fala sobre aquele estado de excitação quando a pessoa que você gosta está chegando. Momento em que você começa a organizar a casa, passar o café, separar o vinho, escolher a comida… mas tudo isso já atravessado pelo desejo. Rafael Marques me mandou a melodia e imediatamente pensei na cena: “Se organize aí que eu tô chegando”. A música brinca o tempo inteiro com essa confusão entre o prazer da comida e o prazer da pessoa. Às vezes não fica claro se eu estou falando do queijo, do vinho, do biscoitinho de fubá… ou do corpo da pessoa. E eu gosto disso. Também quis deixar Recife muito presente ao citar bairros para marcar geograficamente o desejo. Vem da minha memória afetiva. Dos ônibus que pegava. Da cidade atravessada pelo amor. E existe algo especial: a participação de Santanna, minha maior referência cantando xote.
Partilha - Talvez a música mais íntima do álbum. Conheço a composição de Juliano Holanda há anos. Mas curiosamente só me atravessou de verdade recentemente. Durante a pesquisa e circulação do “Baile Brasileiro”, me divorciei.Relação de dez anos. Término pacífico, respeitoso, amoroso… mas doloroso. Escrevi músicas e poesias sobre o período, mas nada tinha me atravessado da forma como “Partilha”. A música constrói uma imagem muito bonita: duas pessoas caminhando juntas em direção ao mar e percebendo que, se continuarem andando lado a lado, vão se afogar. Então cada uma segue pra um lado. Essa imagem me desmontou. E o som do mar foi muito importante pra mim nessa faixa. No final do meu casamento, morávamos perto do mar na Zona Sul do Recife, onde o som do mar invade tudo. Está presente o tempo inteiro. Ao mixar a música, sentia que faltava algo. Até entender que era o mar e colocamos o som das ondas.
Alegria Pé de Serra - Essa música me emociona profundamente. Porque vejo muitas histórias de artistas dizendo que cresceram cercados de músicos virtuosos, grandes intérpretes, pessoas tecnicamente brilhantes. E preciso ser honesto: não cresci assim. Cresci cercado de trabalhadores que faziam música nos fins de semana. Pessoas que talvez não fossem tecnicamente impecáveis, mas com fogo artístico muito poderoso. Anos atrás, Felipe Costta, Jr. Teles e eu fomos a Umbuzeiro (PB) conhecer Bá Veloso, mestre de Felipe. E teve um momento marcante. Bá pegou a sanfona de Felipe pra tocar. Tecnicamente, existia um abismo entre os dois: Felipe é um virtuoso, estudioso, Bá, autodidata. Mas quando Bá começou a tocar, inundou o lugar de alegria. Ali estava materializado o tocador popular que construiu a música nordestina. Na gravação, quis criar a sensação de estar sentado numa casa ouvindo duas sanfonas tocando perto de você. Inclusive mantive os ruídos das teclas, o som do fole, a respiração do instrumento. Porque aquilo também é música.
Sou Mais Forró - Gravei “Sou Mais Forró” porque, nos últimos anos, viajando com essa pesquisa do Baile Brasileiro, vivi muitas formas diferentes de dançar forró. Fui pra outros estados. Pra Portugal. Uruguai. E notei tentativas de me explicar como o forró deveria ser dançado. O jeito certo. O errado. Não quis entrar na disputa. Só afirmar o nosso jeito de dançar no Nordeste. Porque existe lógica cultural nisso. Dançar colado, girar menos, fazer menos ornamentos… tudo isso tem relação com o fato de o forró ser dançado, por muito tempo, em terreiro, em chão de terra. Se você gira demais, a poeira sobe. Então, o corpo foi criando uma cultura própria. Essa música é muito isso: uma defesa do nosso jeito de sentir e viver o forró. Sem diminuir ninguém. Mas também pedindo respeito.
Pau nas Coisas - Representa o momento em que o forró pega fogo. O instante em que tudo esquenta: o corpo, a música, o salão, as pessoas. Quando o povo tira a sandália, dobra a calça, abre a camisa e simplesmente dança. Sem pensar muito. Só vivendo. Essa música fala dessa pulsação física do forró. Dessa agressividade que não é violência, é impulso, vibração, epifania. Foi também a primeira faixa produzida dentro desse caminho mais híbrido entre o orgânico e o eletrônico.
Canaã - Sintetiza muitas coisas que estão espalhadas pelo disco. Conversa diretamente com a intro. Como se o começo fosse a inspiração e o final, a expiração. Fala sobre Canaã como esse lugar desejado. Esse lugar prometido. Esse lugar onde a gente consegue viver sem precisar abandonar quem é. E isso me atravessa profundamente. Porque existe uma pressão constante pra que artistas deixem seus lugares e migrem para centros maiores pra sobreviver de arte. E eu tento resistir a isso. Tento acreditar nessa Canaã possível. Nesse lugar onde a gente possa viver, produzir, criar e ser feliz sem precisar sair do nosso território. Anos atrás, tive burnout e quadro de depressão crônica. Depois de terapia, cuidado e arte, consegui sair desse lugar. Então quando a música termina dizendo “Eis porque voltei a cantar”, não é só poesia. É literalmente verdade. E Canaã também é isso: o lugar de estar vivo de novo.