Em 27 de agosto de 2026, Pernambuco lembra os 27 anos da morte de Dom Hélder Câmara, que faleceu em 1999; em entrevista especial, irmã Wanda Araújo recorda duas décadas de convivência com o religioso e revela detalhes da vida, da fé, da perseguição durante a ditadura, da relação com artistas e do processo de beatificação
UMA CASA QUE GUARDA A MEMÓRIA DE UM DOS GRANDES NOMES DA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO
Na Rua Henrique Dias, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, existe um lugar onde a história religiosa, social e política de Pernambuco permanece viva. Ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, conhecida também como Igreja das Fronteiras, está a casa onde Dom Hélder Câmara viveu durante décadas.
É nesse cenário de memória que Luís Correa — O Repórter que Chega Primeiro conversa com a irmã Wanda Araújo, religiosa que conviveu aproximadamente 20 anos com Dom Hélder e que conhece de perto histórias da rotina, da espiritualidade, da simplicidade e da atuação do arcebispo emérito de Olinda e Recife.
Em 2026, completam-se 27 anos da morte de Dom Hélder Câmara, ocorrida em 27 de agosto de 1999, aos 90 anos. A data é registrada por diferentes instituições e veículos que preservam a memória do religioso. (Diario de Pernambuco)
“ELE MOROU AO TODO NESSA CASA 31 ANOS”
Segundo irmã Wanda, Dom Hélder chegou ao Recife em 1964 e permaneceu na casa ligada à Igreja das Fronteiras por 31 anos.
“Eu convivi com Dom Hélder acho que aproximadamente uns 20 anos. Ele era arcebispo de Olinda e Recife. Quando eu cheguei, ele já morava aqui nessa casa, e aqui a gente conviveu bastante, porque ele ficou até a morte.”
A casa preserva objetos, móveis, fotografias e ambientes relacionados à vida do religioso. O espaço faz parte do conjunto histórico ligado ao Memorial Dom Hélder Câmara. O Instituto Dom Helder Câmara informa que a antiga residência reúne objetos pessoais e móveis utilizados por ele entre 1968 e 1999. (Dom Helder Camara Oficial)
A PERSEGUIÇÃO DURANTE A DITADURA MILITAR
A entrevista também mergulha em um dos períodos mais difíceis da vida de Dom Hélder: os anos da ditadura militar.
O religioso tornou-se uma das vozes mais conhecidas em defesa dos direitos humanos e dos pobres. Documentos históricos registram sua atuação contra violações de direitos humanos durante o regime militar. (Serviços e Informações do Brasil)
Irmã Wanda recorda a perseguição sofrida por Dom Hélder e menciona inclusive o assassinato do padre Antônio Henrique, sacerdote jovem ligado ao trabalho com universitários.
“Dom Hélder, assim, viveu… foi um período muito duro na vida de Dom Hélder, esse período da ditadura militar.”
Segundo o relato apresentado na entrevista, Dom Hélder chegou a ter o nome impedido de ser citado pela imprensa durante anos.
A atuação internacional também marcou sua trajetória. Dom Hélder foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, número que o tornou o brasileiro mais vezes indicado à premiação. (Serviços e Informações do Brasil)
UM BISPO QUE TAMBÉM ERA HOMEM DAS ARTES
Se a imagem pública de Dom Hélder ficou fortemente associada à defesa dos direitos humanos, sua relação com a cultura também ocupava espaço importante em sua vida.
Irmã Wanda conta que ele frequentava shows, teatros e outros eventos culturais e recebia artistas em sua residência.
“Dom Hélder era um homem das artes. Ele dizia: ‘Às voltas com as artes, às voltas com Deus’.”
A ligação com a cultura pernambucana também aparece nas lembranças da religiosa. Segundo ela, Dom Hélder gostava do carnaval, do São João e participava de eventos culturais realizados no Recife.
Entre os artistas citados na entrevista estão Luiz Gonzaga, Chico Buarque e Alcione.
Sobre Alcione, irmã Wanda recorda:
“Quando ela via Dom Hélder na plateia, ela dizia: ‘A bênção, meu padrinho’.”
A MADRUGADA DE ORAÇÃO E AS MAIS DE OITO MIL MEDITAÇÕES
Por trás da figura pública havia também uma rotina de intensa espiritualidade.
Segundo irmã Wanda, Dom Hélder acordava de madrugada para rezar e escrever.
“Dom Hélder levantava de madrugada para rezar. Levantava às duas horas da manhã, rezava de duas às quatro, todos os dias.”
Ela afirma que existem mais de oito mil meditações produzidas durante essas vigílias.
“Nós temos para mais de oito mil meditações de Dom Hélder escritas nessas vigílias da madrugada.”
O PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO
Outro momento importante da entrevista é dedicado ao processo de beatificação de Dom Hélder Câmara.
Irmã Wanda explica que o processo de santificação foi aberto em 2015, depois da autorização para a abertura da causa, e que a fase diocesana foi concluída. Atualmente, o processo está na fase romana.
“O processo de santificação de Dom Hélder foi aberto em 2015. Nós já cumprimos toda a fase diocesana e agora está na fase romana.”
A religiosa também revela a dimensão do material encaminhado para Roma.
“Nós enviamos para Roma essa quantidade de livros para ser anexado ao processo de Dom Hélder: 415 quilos de livros.”
Segundo ela, o material reúne diferentes coleções, incluindo discursos, programas de rádio, meditações, correspondências e hemeroteca.
Sobre possíveis milagres, irmã Wanda explica que existem relatos de graças atribuídas à intercessão de Dom Hélder, mas que a análise sobre eventual milagre depende das etapas próprias do processo.
“Existem vários relatos de graças alcançadas. Agora, saber se são graças ou se são milagres, isso aí só quando Roma determinar que a gente pode começar a investigação.”
UMA MORTE TRANQUILA, DEPOIS DE UMA VIDA INTENSA
Dom Hélder morreu no Recife, em 27 de agosto de 1999. Registros históricos apontam que ele morreu aos 90 anos e que sua despedida mobilizou muitas pessoas. (Diario de Pernambuco)
Irmã Wanda lembra os últimos dias do religioso.
“Dom Hélder, nos últimos dias, ele passou um período curto, doente, não quis ficar no hospital. Ele pediu para morrer em casa.”
Segundo ela, foi montada uma estrutura para que ele pudesse receber os cuidados necessários na própria residência.
“Foi um período de muito sofrimento para todo mundo que conhecia, que gostava, mas, ao mesmo tempo, foi uma despedida muito tranquila.”
O sepultamento foi acompanhado por uma multidão. Os restos mortais de Dom Hélder estão na Catedral da Sé, em Olinda. (Serviços e Informações do Brasil)
QUATRO PAPAS E UMA VIDA DE IGREJA
Durante a entrevista, irmã Wanda também recorda a relação de Dom Hélder com diferentes pontífices.
Ela cita João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
“João XXIII, que abriu o Concílio. Depois Paulo VI, que foi quem nomeou Dom Hélder bispo. Depois João Paulo I rapidamente e João Paulo II.”
Dom Hélder participou do contexto do Concílio Vaticano II e manteve relações importantes com a Igreja internacional. A própria trajetória dele está ligada às transformações vividas pela Igreja Católica no século XX. (MFC)
A SIMPLICIDADE DENTRO DE CASA
Um dos aspectos que mais chamam atenção durante a visita é a simplicidade dos ambientes.
A casa preserva a memória de um homem que abriu mão de morar no Palácio Episcopal e escolheu uma residência simples, próxima à igreja.
No quarto, permanece uma cama de solteiro que, segundo o relato da entrevista, havia sido trazida do seminário.
A casa também guarda um antigo telefone, fotografias, objetos religiosos e elementos que ajudam a reconstruir a rotina do religioso.
Dom Hélder também mantinha forte relação com o rádio e com a comunicação. Segundo irmã Wanda, ele se comunicava com os fiéis através da Rádio Olinda e acompanhava o jornal impresso.
A HISTÓRIA DA IGREJA DAS FRONTEIRAS
A própria igreja onde Dom Hélder viveu possui uma história anterior à presença do religioso.
Na entrevista, irmã Wanda conta a tradição relacionada a Henrique Dias, personagem histórico ligado à resistência contra os holandeses.
Segundo o relato, Henrique Dias teria feito um voto a Nossa Senhora e prometido construir uma igreja caso seu grupo saísse vitorioso.
A vitória teria ocorrido em 15 de agosto, data dedicada a Nossa Senhora da Assunção, origem da denominação da igreja.
O local passou a ser conhecido como Igreja das Fronteiras porque, segundo a tradição apresentada na entrevista, ficava no limite das terras relacionadas a Henrique Dias.
A igreja também recebeu a visita de Dom Pedro II e possui o título de capela imperial, segundo o relato apresentado pela irmã.
Com a passagem de Dom Hélder pelo local, ganhou outra identidade popular: a Igreja de Dom Hélder.
A HISTÓRIA DE DOM HÉLDER E PADRE CÍCERO
Durante a visita, irmã Wanda também resgata uma história envolvendo Dom Hélder ainda jovem e Padre Cícero, em Juazeiro do Norte.
Segundo o relato, Dom Hélder estava envolvido na venda de assinaturas de um jornal para ajudar na manutenção do seminário, mas não conseguia convencer as pessoas a comprar.
A solução teria sido procurar Padre Cícero.
O encontro acabou se transformando, segundo a memória contada pela religiosa, em uma lição sobre perdão e ausência de ressentimento.
“Sabem que no coração de um padre não pode ter uma gota de travo, de ressentimento.”
A recomendação de Padre Cícero teria ajudado Dom Hélder a vender as assinaturas e, anos depois, a história permaneceu como uma lembrança importante de sua formação.
A REDE, LUIZ GONZAGA E OS ARTISTAS
A sala da casa também guarda uma das lembranças mais simbólicas da relação de Dom Hélder com a cultura.
Uma rede aparece como parte da memória do ambiente.
Segundo irmã Wanda, Dom Hélder gostava de descansar ali e existem fotografias dele na rede. Ela também recorda que Luiz Gonzaga esteve na casa e tocou acordeom para o religioso.
“Era amigo de Luiz Gonzaga. Tudo que era artista vinha aqui visitar Dom Hélder.”
A lembrança reforça a imagem de um religioso que transitava entre a espiritualidade, a cultura e o cotidiano das pessoas.
A ROSEIRA QUE VIROU POESIA
No jardim da casa existe ainda outra lembrança afetiva.
Dom Hélder queria que sua residência tivesse uma roseira. Segundo irmã Wanda, ele recebeu a planta, colocou-a no jardim e chegou a dedicar um livro de poesia à roseira.
É um detalhe aparentemente simples, mas que ajuda a revelar outra dimensão do religioso: o homem que unia oração, poesia, natureza, cultura e compromisso social.
“UM PROFETA, UM POETA, UM MÍSTICO E UM GRANDE DEFENSOR DOS DIREITOS HUMANOS”
Na parte final da entrevista, irmã Wanda resume a imagem que guarda de Dom Hélder.
Ela destaca o religioso como homem de oração, místico, poeta e defensor dos pobres.
“Dom Hélder a gente tem que considerar Dom Hélder um profeta, um poeta, um místico, um santo, um homem de oração e um grande defensor dos direitos humanos, sobretudo dos direitos dos pobres.”
E acrescenta:
“E um homem de uma inteligência brilhante. Brilhante.”
A trajetória de Dom Hélder foi marcada justamente pela defesa dos mais pobres e dos direitos humanos. Em 2017, uma lei federal o declarou Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. (Wikipédia)
27 ANOS DEPOIS, A MEMÓRIA CONTINUA VIVA
Vinte e sete anos depois da morte de Dom Hélder Câmara, a casa da Rua Henrique Dias continua funcionando como lugar de memória e preservação de sua trajetória.
O Instituto Dom Helder Câmara mantém o trabalho de preservação do acervo e da memória do religioso, com objetos pessoais, documentos, fotografias e outros elementos relacionados à sua vida. (Dom Helder Camara Oficial)
Para quem entra naquele espaço, a história deixa de estar apenas nos livros. Está na cama simples, na rede, nas fotografias, nos objetos, na roseira e nas lembranças de quem conviveu com ele.
E é justamente essa memória viva que irmã Wanda Araújo compartilha nesta entrevista especial.
Como lembrou Luís Correa no encerramento da reportagem, uma das frases atribuídas a Dom Hélder resume a força de sua visão sobre o povo:
“Está pensando que o povo não pensa? O povo pensa.”
E você, qual lembrança ou ensinamento de Dom Hélder Câmara mais marcou a sua história? Deixe seu comentário, compartilhe esta reportagem e acompanhe o blog O Repórter que Chega Primeiro para conhecer outras histórias que ajudam a preservar a memória de Pernambuco.
FONTES DE APOIO: CNBB; Instituto Dom Helder Câmara; Câmara dos Deputados; Câmara Municipal do Recife; registros históricos e entrevista realizada por Luís Correa com a irmã Wanda Araújo. (Dom Helder Camara Oficial)