Recife – Fevereiro de 2026
O profeta dos pobres que desafiou a ditadura, escolheu viver com simplicidade e permanece como símbolo de fé, justiça social e defesa intransigente dos direitos humanos no Brasil
A casa simples ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, na Rua Henrique Dias, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, guarda mais do que móveis antigos e objetos religiosos. Guarda a memória, a fé e a coragem de Dom Hélder Pessoa Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que se vivo estivesse completaria 117 anos neste mês de fevereiro de 2026. Nascido em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza (CE), Dom Hélder segue sendo lembrado como um dos maiores nomes da Igreja Católica brasileira e um dos mais firmes defensores dos direitos humanos no país.
A reportagem esteve no local histórico conhecido popularmente como Igreja de Dom Hélder, onde ele viveu por 31 anos, após renunciar morar no Palácio Diocesano. Ao lado da capela, está a casa paroquial onde o religioso escolheu viver de forma simples, em coerência com sua opção pelos pobres. Foi ali que Dom Hélder construiu sua rotina de oração, trabalho pastoral, acolhimento e resistência em um dos períodos mais duros da história do Brasil: a ditadura militar.
Durante a visita, a reportagem conversou com irmã Wanda Araújo, que conviveu com Dom Hélder por cerca de 20 anos. Segundo ela, o arcebispo chegou ao Recife em março de 1964 já como bispo, cargo que exercia havia mais de uma década, e desde o início deixou claro que não desejava viver em palácios. Preferiu a casa simples ao lado da igreja, onde atendia pessoalmente quem batia à porta. “Se alguém chegasse, ele não deixava ninguém atender. Era ele mesmo que ia. E ficava na porta até não ver mais a pessoa”, relatou.
A casa preserva espaços marcantes: a pequena sacristia, o quarto simples com uma cama de solteiro trazida do seminário, o rádio que ele usava para se comunicar com os fiéis e acompanhar as notícias, a mesa de trabalho, o antigo telefone por onde falava com o mundo em francês, inglês, espanhol e italiano, além da rede onde gostava de descansar. Segundo a irmã Wanda, artistas, religiosos e intelectuais passaram por ali. Luiz Gonzaga, Chico Buarque e Alcione estão entre os nomes que visitaram Dom Hélder, que transitava com naturalidade entre a fé, a cultura e o povo.
No jardim da casa, uma roseira plantada pelo próprio Dom Hélder chama atenção. Ele costumava dizer que sua casa precisava ter um jardim com uma roseira, símbolo de beleza e esperança. Sobre ela, escreveu poesias e reflexões espirituais. A simplicidade também se refletia em gestos concretos: Dom Hélder doava roupas, ficava apenas com o essencial e demonstrava, no cotidiano, a opção radical pelos pobres.
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, também conhecida como Igreja das Fronteiras, é um marco histórico. Foi construída a partir de um voto de Henrique Dias, comandante negro que lutou contra os holandeses. A vitória ocorreu em 15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Assunção, o que deu nome à igreja. O local é considerado Capela Imperial e recebeu visita de Dom Pedro II. Com a presença de Dom Hélder, passou a ser ainda mais conhecida e carregada de significado histórico e espiritual.
Dom Hélder teve convivência direta com vários papas, entre eles João XXIII, que abriu o Concílio Vaticano II; Paulo VI, que o nomeou bispo; João Paulo I, por um curto período; e João Paulo II. Seu lema episcopal, “Em tuas mãos”, traduzia sua entrega total à missão pastoral.
Durante a ditadura militar, Dom Hélder tornou-se uma das vozes mais firmes contra a repressão, a tortura e a desigualdade social. Por isso, sofreu perseguições, ameaças e censura. Seu nome chegou a ser proibido de circular na imprensa brasileira. Ainda assim, ganhou reconhecimento internacional e foi indicado diversas vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Sua frase mais conhecida atravessou gerações: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.”
Desde 2015, Dom Hélder Câmara está oficialmente em processo de beatificação na Igreja Católica. A causa reúne escritos, testemunhos e relatos que destacam não apenas sua fé, mas sua coerência de vida, sua mística profunda e sua incansável defesa dos direitos humanos, sobretudo dos mais pobres.
Ao completar simbolicamente 117 anos, Dom Hélder segue presente na história, na fé e na consciência social do Brasil. Sua casa, sua igreja e sua memória continuam sendo espaço de visitação, reflexão e inspiração.
Reportagem do blog O Repórter que Chega Primeiro
Jornalista: Luís Correa
Casa de Dom Hélder Câmara – Igreja Nossa Senhora da Assunção
Rua Henrique Dias – Boa Vista – Recife
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