“Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro” traz relatos de 20 estudantes privados de liberdade que abordam lembranças positivas anteriores ao encarceramento
Fragmentos de vidas que se revelam, não a partir do erro, mas da potência da memória. É assim que os professores da rede estadual Moacir Silva e Fabrícia Alves definem os relatos do livro “Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro”, organizado por eles, que reúne memórias literárias produzidas por 20 estudantes privados de liberdade da Escola Dom Hélder Câmara, no Presídio de Igarassu. O livro é o resultado do projeto Memórias, que desafiou os estudantes a revisitar lembranças positivas anteriores ao encarceramento.
“Ao revisitarem lembranças de dias luminosos e afetos guardados, estes autores demonstram que a memória não é apenas um registro do que passou, mas um combustível para a resiliência é um estímulo à reinvenção de si mesmos”, reforçam os professores de língua portuguesa na capa da publicação, que foi lançada durante a programação do Circuito Literário de Pernambuco (Clipe) no Recife. O livro também teve um lançamento na própria unidade de ensino, na última sexta-feira (22).
Os relatos são fruto de um processo de escuta, partilha e criação, guiado pelos docentes, com os estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) prisional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. “Alguns choravam em sala de aula porque diziam que não tinham o que falar de bom. E aí, com o trabalho que a gente foi fazendo a partir do uso de fotos e imagens que remetem ao passado, eles começaram a despertar e perceber que são muito mais do que são hoje, que a vida deles não é só isso que os levou até a prisão”, conta Moacir.
A partir daí, surgiram narrativas que resgatam temas como a infância, a família, as primeiras paixões e as brincadeiras de rua. Mesmo em meio a dificuldades, a literatura serviu como importante ferramenta de cura, inspirando textos carregados de sentimentos e reflexões que revelam fé, humanidade, saudade, arrependimento, esperança e desejo de recomeço.
O gênero textual de memórias foi escolhido para a atividade por dialogar com as vivências dos estudantes por ativar lembranças que ultrapassassem o contexto de violência que os levou à criminalidade. “Percebemos, em grande parte dos nossos estudantes, uma certa ruptura com o passado, como se nada do que viveram na infância e adolescência fizesse mais sentido. O projeto Memórias entra a partir daí com duas funções: a de trabalhar, em sala de aula, mais um gênero textual, contemplando o conteúdo do componente curricular língua portuguesa, e também a de promover o resgate de memórias afetivas que de certa forma ficaram esquecidas em algum lugar no passado”, completa o professor.
Escolas prisionais
Os estudantes da EJA nos espaços de privação de liberdade têm a oportunidade de evoluir nos estudos durante o processo de ressocialização. Atualmente, a Rede Estadual de Ensino de Pernambuco oferece educação formal em todas as unidades prisionais do estado, alcançando mais de seis mil estudantes matriculados. São 21 escolas prisionais e três anexos, que cumprem o objetivo de promover a reintegração social e garantir o direito constitucional à educação para a população privada de liberdade.
Nessas unidades de ensino, iniciativas como o Projeto Remição pela Leitura, que possibilita a redução do tempo de pena a partir da leitura e avaliação de obras literárias, e o Programa Monitoria PE, que seleciona monitores bolsistas de matemática e língua portuguesa, mantém os estudantes engajados. “Garantir a EJA no sistema penitenciário é mais do que cumprir uma meta educacional. É oferecer uma chance real de transformação por meio do conhecimento”, destaca Jeane Lima, gerente da Educação de Jovens, Adultos e Idosos da Secretaria de Educação de Pernambuco.
Além do foco pedagógico, a saúde mental e o suporte emocional ganharam reforço no ambiente escolar prisional. “Atualmente, nove das escolas que operam nesse sistema já contam com a presença de analistas de psicologia escolar, que integram a equipe multiprofissional responsável por acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e apoiar o corpo docente. Com o avanço das convocações, estamos expandindo, progressivamente, o atendimento para todas as escolas da rede prisional”, completa Jeane.
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