Projeto musical e trabalhos literários, ambos iniciativas de professores da rede estadual de ensino, mostram como educação, arte e dedicação podem, juntas, transformar a vida dos alunos
“A educação tem o poder de transformar o mundo” é uma máxima comum a todo professor. Para além do Dia dos Professores, comemorado nesta quinta-feira (15), essa visão poderosa do trabalho do educador toma corpo de diferentes maneiras ao longo de todo o ano, inclusive pelas expressões artísticas. A trajetória de dois professores da rede estadual de ensino de Pernambuco mostra exatamente como a música e a escrita podem transformar o dia a dia e até mesmo o futuro dos estudantes, mesmo nos lugares mais improváveis.
Rafael Reinaldo é professor de Biologia há quase nove anos na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Ageu Magalhães, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Mas o seu impacto como educador atravessa as paredes da sala de aula e ecoa por meio de instrumentos. Em 2018, ele formou a banda Os Magalhães com estudantes e professores da escola. A ideia surgiu como um resgate de sua própria história como músico amador.
“Quando cheguei na escola, tive a oportunidade de me sentar com os alunos na quadra. Eu toquei violão ali, eles também tocaram e, com o tempo, isso foi crescendo. Outros alunos foram se interessando”, conta Rafael. Com o interesse dos estudantes, ele logo percebeu alguns talentos presentes na turma e o que surgiu como um momento descontraído na relação entre professor e estudantes ganhou novos horizontes.
Estudantes da Erem Ageu Magalhães são protagonistas em banda formada pelo professor Rafael Reinaldo. Foto: Arquivo Pessoal/Rafael Reinaldo
A música acabou ganhando uma posição de destaque no processo de ensino e aprendizagem, inclusive com projetos e parcerias com disciplinas e outros espaços da escola. “Desenvolvemos um projeto com a coordenadora da biblioteca, em que colocamos a meninada para tocar músicas inspiradas em clássicos da literatura. Também já houve uma vez em que eu fiz uma parceria com um professor de Física e a gente explicou o que eram as ondas sonoras e como isso chegava na parte biológica”, explica o professor.
A gestão da escola viu potencial e decidiu investir na compra de instrumentos musicais, como bateria, guitarra e teclado, além de disponibilizar um espaço próprio para os ensaios. Desde então, cada formação da banda — a atual conta com 13 membros fixos, além de todos os estudantes aprendizes — ensina à próxima o básico dos instrumentos musicais, para que sigam representando a Erem Ageu Magalhães culturalmente.
Com um repertório que passa pela MPB, rock, samba e a música pernambucana e nordestina, Os Magalhães marcam presença nos principais eventos da escola, como São João e Carnaval, mas também fora dela. Para o professor, a arte colabora com a formação desses estudantes. “A arte não é algo supérfluo. Nem todos vão se interessar por música. Alguns vão se interessar mais por pintura, alguns vão se interessar mais por leitura, mas eu creio que a arte é fundamental na vida dessa meninada”, reflete Rafael, que divide a visão com outros professores da rede estadual.
Moacir Silva, professor de Língua Portuguesa e Inglesa, é um deles. Ele ensina na Escola Dom Hélder Câmara, em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, uma das 21 escolas que atendem ao sistema prisional do estado. Professor da Rede Estadual de Pernambuco há 21 anos, ele atua desde o início da sua carreira na Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI). Há 11 anos, Moacir decidiu seguir um caminho diferente. Hoje, ele ensina pessoas privadas de liberdade sob custódia do estado.
A convicção no ensino de pessoas no sistema prisional levou Moacir a coorganizar com a professora Fabrícia Alves dois projetos literários com textos de diferentes gêneros. O primeiro trabalho, “Nas Asas da Liberdade”, lançado em 2019, traduz as vivências e sentimentos dos detentos no formato de cordel. A inspiração veio do projeto Educando em Cordel, desenvolvido no ano anterior pela Secretaria de Educação de Pernambuco em parceria com o poeta Edgar Diniz.
Moacir Silva é um dos professores organizadores do livro de memórias escrito pelos estudantes da Escola Dom Hélder Câmara. Foto: Demison Costa/SEE
O mais recente, “Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro”, foi lançado em maio deste ano, como resultado do projeto Memórias. A coletânea de textos produzidos pelos alunos surgiu como uma forma de estimular a escrita e o resgate de memórias pessoais em meio ao confinamento. “Os estudantes acabam, em muitos casos, perdendo a conexão com o passado deles, é como se tivesse um bloqueio. Eles esquecem inclusive das coisas boas que viveram”, explica.
Ele conta que a ideia de produzir um livro de memórias veio por acaso, após uma atividade em sala de aula. “Eu sempre tive a curiosidade de trabalhar algum gênero que fosse realmente significativo para eles, que tivesse uma função. A gente percebeu que tem tudo a ver com o que eles estão vivendo”, explica Moacir.
Embora entenda que alguns estudantes buscam principalmente a remissão da pena ao se matricularem na escola, Moacir vê essa motivação inicial como uma janela de oportunidade para transformá-la em um verdadeiro gosto pelo estudo. E a dedicação do professor mostra isso. “Eu não estaria num lugar desses se eu realmente não acreditasse no poder que a educação tem de transformar. O papel do professor é o de mostrar caminhos, descobrir talentos, estimular, fazer com que as pessoas abram os olhos pro mundo e dar asas para que elas voem sozinhas”, conclui.
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